quinta-feira, 10 de abril de 2014

Ainda há um pouco do período Pré-histórico nas concepções da população atual - Por Cristiane Lopes*

A Pré-história é um momento histórico que se estende até aproximadamente 8.000 a.C, é dividida em dois períodos: Paleolítico e Neolítico. Neles o homem era nômade, não fazia uso adequado da consciência, agindo assim por impulso/instinto, de forma irracional. Porém o resultado da última pesquisa divulgada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) nos levou a repensar se realmente o período Pré-histórico foi há 8.000 a.C ou se voltamos a ele.

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Pois de acordo com a pesquisa, simplesmente 65,1% dos 3.800 entrevistados acham que “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”; já 58,5% acreditam que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. E o mais assustador é que mais da metade dos entrevistados (66%) eram mulheres.

Sendo assim, é certo que, voltamos ao período Pré-histórico e estamos cercados por uma sociedade machista, pois existem explicações comprovadas sobre o que motiva a ocorrência de um estupro, como: problemas psicológicos, familiares e desvio de caráter. Tudo bem, uma roupa curta pode provocar olhares, desejo e etc, mas será possível que os homens são tão pré-históricos a ponto de não controlarem seus impulsos/instintos?

A Índia está entre os países com a maior incidência de estupro no mundo, assim como diversos países do Oriente Médio e lá as mulheres não usam roupas curtas, a cultuara impõe que elas usem vestimentas que as cubram dos pés à cabeça e que tenham um comportamento tido como exemplar para futuras esposas e mães, nem por isso elas deixam de ser estupradas. Certo que lá a cultura é diferenciada, mas a questão da vestimenta e do comportamento não impede a ocorrência da violência sexual.

Portanto, estilo de roupa e comportamento não motiva a prática de estupro. O que realmente motivam isto são problemas psicológicos, desvio de caráter e falta de educação, vergonha na cara e de cidadania, além, é claro, da cultura machista que está impregnada em nossa sociedade.

E ainda há a discrepância de que 66% dos entrevistados eram mulheres, ou seja, o pensamento machista também se estende para além da ala masculina. Se já não bastasse lutar para reverter essa concepção ultrapassada em relação aos homens, percebe-se pelo resultado da pesquisa que também será necessário mudar a opinião de muitas mulheres que se deixam influência por uma educação patriarcal, estritamente baseada numa hierarquia machista, acabam por carregar isto por toda a vida e consequentemente influenciando gerações seguintes.

E aí, como nós, mulheres, ficamos diante do resultado antiquado dessa pesquisa?

Vamos abdicar de usar modelos de roupas que gostamos ou mudar nosso comportamento para interferir positivamente no resultado da pesquisa e na concepção “politicamente correta” dos entrevistados? Óbvio que não, temos que levantar nossa bandeira do movimento feminista, somos livres e temos o direito de vestir o que acharmos mais apropriado, seja curto, médio ou longo. Estamos em pleno século XXI, o mundo evoluiu em diversos aspectos e a mulher com muita luta conseguiu seu espaço nos mais diversos setores, períodos como a Pré-história, Idade Antiga, Idade Média e Ditadura Militar ficaram no passado, pelo menos nos livros de História porque na mente de muitos ainda há indícios de concepções que dominavam períodos antigos.

Resultados como esses da pesquisa não leva a pensar que existe um pouco de Pré-história nas atitudes, consciência e no modo de vida da sociedade atual, todavia a mobilização de mais de 45 milhões de adeptos ao movimento "Eu não mereço ser estuprada” comprova que pelo menos uma parte da população ainda mantém o uso do senso crítico baseado nos princípios éticos e morais para seguir construindo um mundo desgarrado de pensamentos machistas, antiquados e preconceituosos.
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*Cristiane Lopes é acadêmica de Pedagogia na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), campus de Bacabal.

NOTA: apesar do IPEA ter admitido erro na pesquisa e feito uma correção, o artigo permanece inalterado com os dados originais por ter sido escrito antes dessa correção e para que provoque uma reflexão por parte dos leitores. Na correção, o órgão informou que 26% dos brasileiros, e não 65%, concordam, total ou parcialmente, com a afirmação de que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas".

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