sábado, 27 de agosto de 2016

Livros inteligentes, títulos insensatos – Por Neemias dos Santos*

A verdade é que mesmo nos países cultos não se lê tantos livros quanto os autores gostariam. E se por um lado os best-sellers norte-americanos e europeus têm mais zeros que os nossos, em outros continentes a loteria do sucesso editorial engloba um número muito maior de autores. Mas, nos países lá de cima se lê muito mais, sim, porque eles têm um inverno rigoroso, que prende a população em casa, criando o hábito de leitura, além de um excelente sistema ferroviário. Neve e vagões confortáveis são estímulos culturais. Podem imaginar um dos nossos pingentes equilibristas lendo A Montanha Mágica? E quem, no calor dos trópicos, suado, vai ao bar e à praia para se dedicar à leitura? O gostoso do verão está no chope, na areia, no hipnótico visual feminino, não está nos livros, infelizmente.

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Aqui no Brasil, todos sabem, quando uma primeira edição esgota em um ano, autor e editor podem respirar aliviados. O primeiro terá vez para nova publicação e o segundo constata que não perdeu dinheiro. Essa escassez de leitores, principalmente do gênero ficção, faz com que alguns autores até declarem que não escrevem para o público, mas para o seu exclusivo prazer, desdenhando totalmente do êxito literário. E repetem essa afirmação com toda a convicção, oral e por escrito, até o feliz dia em que seu livro passe a figurar a lista dos mais vendidos.



Poucos autores na realidade assumem a postura de caçador de leitores. Esse serviço de aproximação e conquista, o feeling desse trabalho, cumpre à editora. E é na capa que ela tem de concentrar todo o seu poder de venda. Creio que se poderia fazer uma minuciosa pesquisa sobre capas de livros, mostrando sua evolução através de aprimoramentos técnicos como desenho, foto, fotomontagem, grafismo e outros recursos. E ainda sobre o uso de cores, discretas e apelativas, como também a quebra de tabus morais, seguindo os exemplos das revistas for men. Mas, não se sabe, pelo que andei indagando, de nenhuma capa que realmente tenha puxado a venda de um livro sem aparentes condições de sucesso.

Deixando para depois a questão do título, que me sugeriu esse artigo, o conteúdo do livro é sua atração máxima, principalmente se está inserido em um boom que de quando em quando dá maior alento às vendas, como foi o do conto, nos anos 70, ou da literatura infanto-juvenil e das biografias, no momento atual. Essas predileções massificadas são tão identificáveis, que certa vez um editor me aconselhou: “faça um livro que ninguém entenda, completamente sem sentido, porque é disso que se gosta hoje. Fui claro?”

Não há dúvida que o maior ponto de venda de um livro, seu exterior publicitário mais forte, que não precisa ser visto como a capa, atraindo à distância, é o título. Ele é a ponte mais larga entre o autor e o público e quando bem sacado funciona melhor que a capa mais chamativa. Mas, a bolação de um título expressivo é sempre problema e desafio para o autor, que muitas vezes se decide pelo simples uso do nome do personagem principal do livro. Quincas Borba, Clara dos Anjos, Iracema. Há autores que não conseguem escrever um romance se já não tem um título. Eu costumo fazer listas de títulos, submetendo-os depois a uma votação. Há também os que partem do título – um título que diga tudo – para esgotar edições, e sobre estes há aquela história de barbas brancas de um editor norte-americano que reduziu assim as preferências do público de seu país: os americanos gostam de uma história que tenha um cachorro ou que aborde uma grande amizade ou que fala de Lincoln. O autor que ouviu o conselho não vacilou, escrevendo um romance que se intitulava: O cachorro do Amigo de Lincoln. Foi um fracasso.

Uma anedota francesa alude a certo autor que apresentou ao editor os originais e um romance intitulado simplesmente O amor. O editor achou o título curto demais e pediu outro, mais apelativo. O autor lhe acrescentou apenas uma palavra: Fiz amor. O editor considerou que não havia nada de extraordinário nesse título, que nem chegava a chocar. O autor retornou logo em seguida com um título mais ousado: Fiz amor com um porco. O editor reconheceu que agora estava muito melhor. Faltava, porém, algo de espiritual, no título, que tirasse dele a possível impressão de vulgaridade ou pornografia. O autor dessa vez demorou mais a aparecer na editora, mas ao voltar trouxe um título que o satisfez plenamente: Fiz amor com um porco e encontrei Deus.
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*Neemias dos Santos Almeida é Professor e Pedagogo. Colunista, Articulista, Membro da ONG Atuação Voluntária, Escritor, Voluntário junto ao órgão internacional PNUD/Brasil, e ávido leitor que vive a internet e suas excentricidades desde 2001.

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