domingo, 24 de agosto de 2014

Suicídio, a maior jogada política de Getúlio Vargas completa 60 anos - Por Cristiane Lopes*

Getúlio Vargas é tido como um dos políticos mais importantes da história brasileira, transformou o sistema político da época, era extremamente popular e conseguiu governar por três vias diferentes: período inconstitucional (1930-1937), onde um movimento popular o levou ao poder, ditadura do estado Novo (1937-1945) e voltou eleito pelo povo, de forma constitucional em 1951 até 1954, ano da sua morte.

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Sempre lembrado por ter sido um presidente carismático, principalmente entre a parte pobre da população, Vargas foi imortalizado pela forma em que se deu sua morte. No dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, comete suicídio após desferir um tiro no peito, ele deixou uma carta-testemunho que explica os motivos que o fez tirar a própria vida.


O que levou Vargas a cometer suicídio?

Por que existem duas cartas-testemunho?

Teria Vargas premeditado o suicídio para se transformar num herói político nacional?


Ao ser eleito em 1951, Vargas já iniciava o governo pressionado tanto pelos seus opositores quanto pelos populares, havia ainda os EUA que ansiava por uma abertura maior do Brasil para os produtos estrangeiros.

A princípio Vargas correspondeu bem às expectativas de todos, porém após algumas demissões nos ministérios, ele via sua gestão entrar em crise, que se agravou com a tentativa de assassinato de seu maior opositor, o jornalista e deputado Carlos Lacerda.

Gregório Fortunato, então chefe da guarda pessoal do presidente, contratou capangas para assassinar Lacerda, nunca foi descoberto se ele fez por iniciativa própria ou a mando de Vargas. Entretanto, o plano falhou e o tiro acabou matando um oficial da aeronáutica que trabalhava na segurança de Lacerda.


A partir desse episódio as críticas sobre Vargas aumentaram e Carlos Lacerda utilizou isso como uma forma de minar a popularidade do presidente e consequentemente o levar a abdicar da presidência. Para não ser deposto, Vargas optou pelo suicídio.

Junto com o velório surgiu uma carta-testemunho que explicava os motivos dele ter cometido suicídio. Essa carta é muito famosa por ter uma frase que foi imortalizada: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”.

Carta-testemunho divulgada no dia do velório de Getúlio Vargas:


"Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci.

Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo.

A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios.

Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.

Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.

Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém.

Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história."


Alguns anos após a morte de Vargas, sua família divulgou outra carta com uma versão diferente, porém esta era escrita à mão pelo próprio Getúlio e não datilografada como foi a primeira carta divulgada.

Segunda carta-testemunho que foi divulgada anos depois pela família de Vargas:


“Deixo à sanha dos meus inimigos, o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia. A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa.

Acrescente-se a fraqueza de amigos que não defenderam nas posições que ocupavam à felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês, à insensibilidade moral de sicários que entreguei à Justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país contra a minha pessoa.

Se a simples renúncia ao posto a que fui levado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranquilo no chão da pátria, de bom grado renunciaria.

Mas tal renúncia daria apenas ensejo para, com mais fúria, perseguirem-me e humilharem-me.

Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas.

Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não dos crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes.

Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos.

Que o sangue dum inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus.

Agradeço aos que de perto ou de longe me trouxeram o conforto de sua amizade.

A resposta do povo virá mais tarde..."


Há diferenças explicitas no conteúdo das duas cartas, a primeira é poética e totalmente subjetiva, já a segunda é simples e direta. Sabe-se que antes de cometer suicídio Vargas deixou a carta com seu melhor amigo, José Soares Maciel Filho, e que ele teria reescrito a carta, sendo esta a divulgada no dia do velório.

Se analisarmos os depoimentos que Getúlio escrevia em seus diários em 1930 e o manifesto que ele lançou em 1945 após o fim do seu período ditatorial, é nítido que ele via a morte como uma possibilidade de responder a fracassos políticos e se eternizar na historia do país.

Foi justamente com esses objetivos que Vargas optou pelo suicídio, pois mesmo em meio à crise do seu governo em 54, ele iria conseguir comover a população que já o idolatrava e consequentemente ser lembrando para sempre como um herói político, ou seja, a maior jogada política da história de Getúlio foi cometer suicídio e deixar uma carta dramática que justificasse isso.

Getúlio Vargas não foi apenas mais um presidente brasileiro, ele foi o presidente que investiu pesado no capital nacional, consegui ser eleito mesmo depois de levar o país a um regime ditatorial de 07 anos, o primeiro a reconhecer direitos dos trabalhadores, assinou, mesmo contra vontade e divergindo de muitos aspectos, a Constituição de 34 que modificava positivamente alguns pontos cruciais do país, é considerado o primeiro presidente a investir em marketing pessoal pois era extremamente popular.

Vargas literalmente fez o que ele mesmo ou seu amigo escreveu na carta-testemunho: "ele saiu da vida para entrar na história". Na história da política brasileira como um dos maiores presidentes e estrategistas que já tivemos, o cara que conseguiu se transformar num personagem complexo, contraditório, fascinante e imortalizado.
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*Cristiane Lopes é acadêmica de Pedagogia no campus de Bacabal da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

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