domingo, 17 de junho de 2012

Crônica dos jovens assassinados - Por Lourival Serejo*

Quem observa as manchetes dos nossos jornais diários e as estatísticas que sempre são estampadas em relação aos crimes ocorridos em São Luís - MA, constata o elevado índice de jovens entre as pessoas que são quase diariamente assassinadas. Geralmente, são rapazes entre 17 a 24 anos de idade. No mês de março, numa relação de 45 vítimas de assassinatos, divulgada por um matutino local, contei 23 jovens nessa faixa etária. Esse fenômeno não é privilégio do Maranhão. O Brasil é o sexto país no ranking mundial dos jovens assassinados.

São pessoas tragadas pela morte em pleno vigor da juventude. Intrépidos infratores da lei, morrem como animais, sem dignidade e sem história. Alguns já colecionam uma série de crimes em seu currículo, como um rapaz que mataram recentemente, na Litorânea, enquanto bebia água de coco. No outro dia, ninguém mais fala deles. Algumas pessoas até aplaudem os matadores, como se fossem justiceiros, executores de uma pena de morte silenciosa, que ainda consegue ter defensores na sociedade, apesar do reconhecimento crescente dos direitos fundamentais.

Esse fenômeno do esquecimento e da aquiescência popular faz lembrar a figura do homo sacer, que se encontrava no ordenamento jurídico e religioso romano, o qual podia ser morto sem que isso configurasse homicídio, pois eram pessoas "matáveis", vidas sem valor e indignas de serem vividas.

O debate sobre o grau de maturidade de alguns desses rapazes, menores de 18 anos, tem despertado muita polêmica, pelos argumentos favoráveis ou contrários, os quais são defendidos por juízes, educadores, advogados e membros do Ministério Público.

O jovem não tem medo da morte, daí o maior número de suicídios entre eles. Já os velhos - ávidos por prolongarem a vida que começa a se extinguir - temem a morte e se resguardam com mais atenção.

Dentre tantos assassinatos de jovens, um deles me chamou a atenção, ao ler a notícia pela internet. O fato ocorreu no mês de março, no estado do Paraná, e se refere a um jovem de 15 anos que foi assassinado com vários tiros. Como a violência já não nos surpreende mais, nada de novo, a princípio, constatamos nessa notícia.

O surpreendente é que o velório desse rapaz foi invadido por seis homens armados, que detonaram vários tiros contra o defunto.

A fome de matar não ficou saciada com a morte da vítima. Quiseram mais: matar o defunto. Se é um absurdo lógico "matar um defunto", para aqueles homens havia uma realização bestial em renovar a execução, até para ficarem garantidos de que não haviam falhado.

O penalista diria que se trata de um crime impossível, por um lado, e vilipêndio de cadáver, por outro. Mas nada disso tem importância para os assassinos repetidos, os quais queriam matar o rapaz duas vezes para exprimir o ódio que sentiam (teria sido traição ou dívidas de tóxicos?) e gozar da satisfação da vingança.

É difícil acreditar que um jovem de 15 anos tenha semeado tanto ódio em sua curta vida, a ponto de seus inimigos o assassinarem duas vezes.

Os 23 jovens assassinados no mês de março deste ano, em São Luís, poderiam, em poucos anos, estar formados em Medicina, suprindo a permanente carência de médicos neste estado. Ou poderiam ser 23 poetas. O mundo precisa de poesia para aprender a ver as coisas belas da vida. Mas o estado de pobreza em que nasceram e morreram esses rapazes não permitia que se desenvolvessem suficientemente sadios para, ao menos, sonharem com um curso superior ou serem trovadores das palavras.

Se os jovens estão morrendo com tanta frequência e facilidade, alguma coisa está errada com a sociedade, que lhes nega o direito de uma vida digna, para continuarem vivos e terem um lugar nesse mundo de competitividade.

Educação adequada, emprego, estabilidade econômica da família, a ausência de tudo isso e mais outras coisas que giram em torno da dignidade humana, levam esses jovens a ser vitimizados com tanta frequência e facilidade, como vagabundos que o mundo repeliu, mas vivem nos filmes e nas ruas tortas, como disse o poeta Drummond.
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*Lourival Serejo é Desembargador e membro da Academia Maranhense de Letras.
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