quarta-feira, 21 de março de 2012

A condição de professor... Miséria pouca é bobagem - Por José Carlos Sebe*

Não tenho dúvidas da reputação romântica que se faz dos decentes. Entre encantamentos profissionais idílicos, a condição de professor é das mais badaladas, alardeada com redentora do mundo e promessa de dias melhores para todos. Há, por certo, algo de poético nessas referências e à inspiração da santidade de Jesus muitos são exaltados como “mestres”. É até cansativo ouvir que o futuro das nações depende dos professores e que pela educação seremos salvos. Não se duvida disso, aliás, e pelo contrário, assevera-se que uma das alternativas mais expressivas para o desenvolvimento é, sim, pelo ensino, mas ensino de boa qualidade e com condições de continuidade.

Afora os elogios e afagos verbosos, compete mergulhar com seriedade nos fatos. Comecemos pelo reconhecimento de culturas e países que fizeram do projeto educacional mais do que um amontoado de palavras elogiosas na base do “ao mestre com carinho”. Estados potentes, como a China e a Coreia do Sul, por se colocarem nos rankings das melhores situações escolares, destacam-se como potências exemplares.

O Japão é modelo expressivo e não menos evidente o caso da Alemanha. Estados como Finlândia, Dinamarca, Suécia e Noruega, entre outros, têm sua estabilidade apoiada em sólida educação dos jovens e por isso apresentam os melhores índices de qualidade de vida do planeta.

Precisei desta introdução para argumentar em favor da condição de trabalho dos nossos professores, em particular, de escolas públicas.

Sabe-se que temos uma das piores distribuições de renda do mundo. Mesmo reconhecendo avanços nos últimos tempos, estamos longe da lógica que nos coloca como sexta maior economia do planeta. Entre 107 países, pelo índice Gini, promovido pelo Banco Mundial, ocupamos o vergonhoso nono lugar entre os piores. Sim, estamos de ponta cabeça em vista da riqueza do país. Isso equivale dizer que, na melhor das hipóteses, seguimos melhorando, mas muitíssimo devagar.

Por lógico, o processo é histórico e tem raízes deitadas no amanhecer de nossa vida social. As arestas da roda histórica apontam para a falta de políticas públicas eficientes, a falência do modelo econômico que exclui grande parte da população, a atenção dada às instituições econômicas e não à população. Sobretudo temos o escandaloso problema dos salários dos docentes. Enfim, a ladainha é grande e repetitiva.

Em meio a uma avalanche de equívocos, eis que de, repente o Ministério da Educação propõe novo piso salarial mínimo para os professores. O que poderia ser uma boa nova tornou-se, ironicamente, situação política grave, ocupando páginas de jornal e alardeando argumentos ridículos por parte de políticos.

A irrisória quantia de R$ 1.451.00 definida foi o suficiente para que governadores e prefeitos se levantassem como guerreiros armados contra inimigos potentes. Desprezando o fato de que essa proposta já foi legitimada pelo Supremo Tribunal Federal, uma combinação de governadores, de onze estados, foi a Brasília reclamar dos “aumentos abusivos”. Sem considerar os gastos das próprias administrações, de viagens inúteis e das representações que mantém na capital federal, esses senhores apedrejam uma proposta mais que respeitável.

Contextualizemos o caso a fim de verificar a fundura do problema. Alguns governadores ganham cerca de R$ 30 mil. Os salários da magistratura são altos e não menores são os dos representantes diplomáticos que, além dos soldos, percebem também ajuda de custo. Tudo sem dizer do escandaloso “auxílio paletó”, taxa extra paga a deputados. Nem vou entrar no debate do 15º salário de alguns políticos. Não sou, absolutamente, contra bons soldos. De forma alguma, mas, quando apelo para a relação entre os bem pagos e os mal pagos me arrepio. Sabem quanto é o salário mínimo de um professor no estado do Rio Grande do Sul? Pois é: R$ 791,00.

As palavras do atual Ministro da Educação,Aloísio Mercadante, são objetivas ao garantir que “a valorização do professor começa pelo piso salarial”. Mas, antes de dar o segundo passo na suposta “valorização docente” cabe garantir a firmeza do primeiro degrau. É aí que entramos na história. Sim, é preciso discutir desbragadamente esta condição. Vale, por exemplo, mostrar que entre os 65 países avaliados no ano passado, o Brasil ocupa o vexatório 53º posto. Perdemos apenas para seis outros e estamos atrás, imaginem, de Trinidad e Tobago, Bulgária, México.

Que fazer? Coloquemos a questão ao público, discutamos em casa, nas escolas, com os professores, nas rodas e redes sociais, e, se for necessário, saiamos às ruas. Afinal, a vida não é uma grande escola?
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*José Carlos Sebe Bom Meihy é professor da Universidade de São Paulo (USP).
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