"Temo por meu filho", conta Samuel Miliyo, "Nunca deixo que ele vá sozinho para a escola". Samuel e seu filho Molle, do povo Masai, vivem perto da cidade de Arusha, no norte da Tanzânia, ao pé do monte Meru, com uma maravilhosa vista das savanas. Molle, sete anos de idade e albino, espia por baixo da aba de seu boné, forçando os olhos para focar a imagem. Sol e luz forte são uma tortura. "Semana passada alguns meninos mais velhos me bateram. Eles me xingaram de mzungu - ‘branco'."
Na escola, Molle não consegue acompanhar os estudos. Com seus olhos sensíveis ele mal pode ler e dinheiro para óculos a família não tem. O professor disse que ele deveria ir a uma escola para deficientes, mas para frequentar esta escola é preciso ter 14 anos ou mais. "O professor me chama de zero-zero", conta Molle. "Não sei o que ele quer dizer com isso." Samuel Miliyo pede para que Molle saia e cochicha: "Zero-zero quer dizer: descendente do diabo. Até pouco tempo atrás os Masai matavam seus bebês albinos logo após o nascimento. Como posso convencer as pessoas da minha tribo de que quero que meu filho viva?"
Maldição
Gibson Mullen (40), sente-se como uma gazela assustada na savana. Em seu escritório em Arusha, ele segura o recibo da pistola que acaba de comprar em frente de seus olhos ruins. "Isso me custou 1,4 milhões de schillings (cerca de 2.500 reais). Ainda não terminei de pagar. Nós albinos temos que nos proteger, de outra forma somos esquartejados."
Para um albino, a África é uma maldição. Uma grossa camada de cimento foi recentemente colocada sobre o túmulo de um albino falecido em Arusha, para evitar que seu corpo seja desenterrado e cortado em pedaços. Gibson conta como mais de setenta albinos tanzanianos foram assassinados nos últimos quatorze meses para que seus corpos fossem usados em feitiços.
Superstições
Na África mágica, ainda é preciso explicar frequentemente que os albinos são pessoas normais, com uma deficiência dos pigmentos que protegem a pele contra os raios ultra-violeta. O sol queima sua pele e provoca carcinomas; seus olhos sensíveis não suportam a luz forte. Um bom protetor solar e óculos fazem toda a diferença, mas estes custos estão fora do alcance de grande parte dos 170 mil albinos da Tanzânia.
Antigamente, os albinos já sofriam dificuldades por causa de superstições, mas desde que há alguns anos feiticeiros começaram a utilizar pedaços de seus corpos, sua vida foi transformada num inferno. Mkombozi Omari é presidente da Associação de Médicos Tradicionais da Tanzânia. "Existem curandeiros e feiticeiros. Eu sou um curandeiro", diz. "Um curandeiro conhece os segredos das plantas que podem ser usadas para curar. Uma sopa de frango com raízes torna as mulheres férteis ou os homens potentes. Pedaços humanos nós não utilizamos nunca", afirma Omari
Hocus pocus
A força da medicina tradicional é grande na África. Presume-se que mais da metade dos africanos se consulta com curandeiros e não utiliza a medicina moderna. Mas as coisas se complicam quando a medicina tradicional se confunde com o hocus pocus dos feiticeiros. Omari tem um meio para alcançar o sucesso em provas, no casamento e na bolsa de valores. "Olhe, se você passar este suco de raízes na sua testa, seu chefe lhe dará um aumento se você pedir." Mas ele adiciona imediatamente: "Mas você precisa acreditar na força de Deus, senão não funciona."
Ainda não se sabe quem são os culpados pela onda de assassinatos a albinos. Há cerca de quarenta suspeitos atrás das grades, mas nenhum foi condenado. "É ganância", diz um advogado em Arusha. "Alguns criminosos ficam ricos com isso. Eles dão ordem para matar, vendem as bebidas para feiticeiros, que por sua vez os vendem por preços altíssimos a seus clientes." O governo da Tanzânia, constrangido pelos assassinatos, nomeou um albino para o parlamento como maneira de demonstrar que quer combater a feitiçaria.
Mobilização internacional
Uma delegação internacional formada por membros do Canadá, Estados Unidos, África do Sul e Tanzânia conversou com centenas de pessoas da comunidade de albinos da Tanzânia em 2008. Muitos deles disseram na época que o governo e a polícia não estavam fazendo nada para condenar os assassinos de pessoas com albinismo.
A delegação, enviada à Tanzânia pelo grupo Under the Same Sun, sediado no Canadá, também conversou com oficiais do governo. Apesar de assegurarem que o governo está fazendo todo o possível, relatórios públicos mostram que ainda não houve nenhum processo contra os suspeitos dos assassinatos de albinos. O comércio de partes do corpo de albinos continua existindo, alimentado por superstições e crenças.
Em seu website, o grupo Under the Same Sun está pedindo apoio internacional para ajudar o governo da Tanzânia a acabar com a matança de civis inocentes.
Vi essa notícia originalmente no blog do Albino Incoerente.







3 comentários:
Fiquei sabendo deste assunto à pouco tempo... Fiquei estarrecido com o nível de ignorância que impera mundo afora! Não basta ser albino, tem que ser alvo. Cada vez menos acredito nos homens.
Cara isso é terrível. Mas conte, e no Brasil, como é a vida de albino? As pessoas tem muito preconceito? Te tratam diferente? Isso poderia até render uma curta entrevista para o meu blog Cineasta 81, o que acha ?
NÃO É IGNORANCIA É APENAS FALTA DE INFORMAÇÃO
ELES NÃO TEM CULPA SE NÃO SABEM DESSA DOENÇA GENÉTICA
OS ÍNDIOS MATAM FILHOS DEFICIENTES É A CULTURA DELES NÃO HÁ O QUE DISCUTIR
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